O Circo Mecânico Tresaulti (Genevieve Valentine)

Em 28.10.2016   Arquivado em Livros

Isto é o que eu sei sobre o Circo:

Confesso que comprei esse livro pela capa. E mais ou menos pelo título, que ok, me pareceu bem curioso – mas eu só fui descobrir qual era o título depois que já estava na fila do caixa, porque a capa não me deu pistas sobre isso. (Só na fila eu me toquei que poderia ter encontrado o título logo nas primeiras páginas e no verso do livro. Assim se mede a expectativa da pessoa.)

Esse foi o primeiro steampunk (ou algo próximo disso) que li, e confesso que por algum tempo fiquei receosa pelo rumo da história. Pra mim esse tipo de tema tem que ser no mínimo bem ilustrado, porque eu tenho alguma dificuldade em visualizar elementos mecânicos. Mesmo em ilustrações, a diferença do encaixe ou funcionamento das peças me deixa bem confusa, então fiquei achando que isso seria duas vezes mais complicado de imaginar, tendo em vista que só as palavras guiariam minha imaginação. Felizmente o livro excedeu muito minhas expectativas nesse quesito.

“Nós somos o circo que sobrevive” (pg. 21)

O Circo Mecânico Tressaulti é o circo que sobrevive. Se ambienta num universo pós-guerra, cercado de caos e destruição, onde o governo tem grande controle em todos os mínimos aspectos. O Circo foge desse tipo de controle, porque afinal, pessoas mecânicas podem ser… suspeitas.

Alguns dos sobreviventes da guerra, sem expectativas ou esperanças de futuro, se juntam ao Circo, e em troca recebem partes mecânicas implantadas em seus corpos. Isso não quer dizer que suas vidas agora pertencem ao Circo. As pessoas vão e vêm. Mas pelo menos, por algum tempo, todos estes renegados se vêem integrados a algum lugar. Mesmo que seja um lugar perigoso e incerto.

“Os aldeões não querem a realidade. Entreguem a ilusão, e eles aplaudirão. ” (pg. 63)

A edição da Darkside ficou também muito incrível. É muito fácil imergir nesse universo em especial com as ilustrações de Wesley Rodrigues, que trazem um traço rabiscado, às vezes sujo, desproporcional, e às vezes até surreal, mas todas as vezes retratam bem o universo.

E, na verdade, a imersão também é muito fácil durante a narração (aquela mesma que me deixou receosa lá no início). Apesar da parte mecânica ter alguma importância no livro, a autora não se prende a esses detalhes. Ela inclusive passa por cima de alguns tópicos, explicando superficialmente como funcionam, como se considerasse que o leitor já está tão dentro do universo que não precisa de explicações minuciosas. E ainda assim, se faz compreensível.

O livro, afinal, é todo escrito de maneira muito simples e direta. Explico melhor: alguns capítulos duram uma ou duas páginas, e ainda assim conseguem ser intensos. Aliás, existe até capítulo com três linhas que consegue dizer muito. O único ponto que me deixou meio confusa foi a inconstância no tipo de narrador: às vezes é narrador-personagem, às vezes é narrador-onisciente, e às vezes a escrita é até em segunda pessoa! Apesar de ser um recurso interessante, acho que às vezes foi um tanto confuso.

“Homens mecânicos”, alguém sussurra, toda vez que o cartaz é colado. Eles não são impossíveis de se encontrar – aqui e acolá se vê alguém que foi remendado com fios e engrenagens -, mas são negócios caseiros. ” (pg. 29)

Não tive personagens favoritos, pois todos são bem balanceados em seus defeitos. Porém, esse equilíbrio e intensidade dos personagens foi o que eu mais gostei em toda história, porque as relações entre os personagens são muito únicas. O Circo é uma grande família (soa brega, mas é real), mas ao mesmo tempo um ambiente cheio de pessoas individualistas. Nesse universo é difícil ter laços estreitos com qualquer um que seja. E isso é muito bem explorado na narração, quando as pessoas conseguem falar muito, e passam mensagens muito fortes, mesmo nas vezes em que estão caladas ou medem suas palavras para esconder segredos.

“(O homem do governo tem planos de consertar o que sobrou da calçada, assim que tiver alcance suficiente para abrir os braços e tocar o oceano dos dois lados)” (pg. 36)

A história já começa citando Alec e suas asas mecânicas. O homem-alado foi um grande sucesso na história do Circo… até o dia em que caiu. E apesar de não estar presente fisicamente no Circo, esse é um personagem muito lembrado e que completa muito a história.

“Ninguém é de ninguém”, disse Boss quando lhe contei, mas era mentira, e nós dois sabíamos disso. Ela tinha um par de asas amarradas em sua oficina que a desmentia. (pg. 77)

A história toda se desenrola de forma incrível. Nada é previsível, nem segue fórmula alguma. Várias vezes parece que a história te guia a concluir determinadas coisas, mas ao virar de poucas páginas, você vê que o jogo muda. Então não considerem apenas as citações aqui escritas; elas são apenas para instigar alguma curiosidade. Mas a verdade por trás de todas essas coisas é muito mais complexa do que parece.

Apesar disso todos os acontecimentos são razoáveis e compreensíveis. Não há nenhuma vez que a autora tenha forçado a barra para chegar a um fim específico. Eu senti como se a história estivesse me guiando para um destino impreciso, como se tudo aquilo fosse perfeitamente espontâneo e nada previsível. E acho que é bem aí que está a magia dele: ele foi todo uma grande surpresa.

Isto é o que você não sabe sobre o Circo.

Editora: Darkside | Páginas: 312 | ISBN: 978-85-66636-80-2

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Nota da Por Deus: Primeiro post feito em colaboração por aquiiiii *-*
Muito obrigada, Mendi, por ter aceitado o convite de escrever uma resenha aqui no PD,N! <3

  • Hayanne deise lins

    Em 28.10.2016

    Apesar de não ser exatamente o tipo de livro que costumo ler, ele me pareceu bem chamativo. Gostei das ilustrações e da temática. Tenho lido tantos romances que mal chego perto desses. Acho que por falta de opção mesmo. kkkk Amei a resenha.

  • BELO, Amanda!

    Em 28.10.2016

    As ilustrações são lindas mesmo, e o livro arrasa demais pra essa proposta.

    E obrigada! Fico feliz que a resenha tenha agradado <3

  • Fabiana

    Em 28.10.2016

    OI Nicole, tudo bem? Eu ia começar dizendo que o livro é lindo, mas… É Darkside né? Tem nem mais o que comentar. A proposta é boa também. Vou tentar encaixar nas minhas leituras. Bjs

  • BELO, Amanda!

    Em 28.10.2016

    A Darkside arrasa em todos os livros!

    (E oi, aqui é a colaboradora da Nicolle C: Me chamo Amanda ahaha muito prazer!)

  • Marcia Lopes

    Em 28.10.2016

    Olá
    Que resenha mais instigante , quero muito ler.
    Eu já estava de olho nele mesmo antes de ler resenha.
    Agora minha vontade e expectativas só cresceram.
    Bjs

  • BELO, Amanda!

    Em 28.10.2016

    Esse livro é ó: sucesso. Se tiver a oportunidade, leia mesmo! É sensacional!

  • Catharina Mattavelli Costa

    Em 28.10.2016

    Olá
    meu deus,q eu edição mais linda, fiquei curiosa só pela edição apesar de não ser um gênero que me atrai muito, bem legal o enredo e a dica, espero ter coragem de ler mais pra frente

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

  • BELO, Amanda!

    Em 28.10.2016

    O gênero parece todo diferentoso mesmo, mas é super envolvente e interessante. Recomendo a experiência! c:

  • Morgana Brunner

    Em 28.10.2016

    Oiii Amanda, tudo bem?
    Menina que livro mais lindo é esse? Fiquei encantada e adoraria mesmo ter a oportunidade de realizar a leitura, as ilustrações estão um escândalo e parabéns pelas fotos e resenhas.
    Abraços

  • BELO, Amanda!

    Em 28.10.2016

    Essas ilustrações me deixaram no chão também. Acho que mesmo que eu não tivesse lido, seria um livro que eu guardaria com todo orgulho na estante ahaha

    Obrigada pelo carinho, Morgana! :*

  • Déborah Araújo

    Em 28.10.2016

    A Darkside arrasa tanto que a gente acaba nem levando em conta o título, ele acaba sendo o de menos.
    A capa e as ilustrações são maravilhosas e motivos suficientes para comprar.
    Nunca li nada do estilo e me conhecendo é provável que eu nem gostasse, mas acho que daria uma chance.

  • BELO, Amanda!

    Em 28.10.2016

    Realmente é um estilo que nem todo mundo gosta, e ok, isso é natural. Mas dar uma chance só para experimentar pode ser boa ideia. Vai que você se surpreende positivamente? c:

  • André

    Em 28.10.2016

    Por Deus, Nicolle,
    Parece até que você estava lendo meus pensamentos.
    O Clube do Livro do ES se reune sempre no último sábado do mês e o tema deste mês foi, justamente, Steampunk. Acabei sendo sorteado com um exemplar de O Circo Mágico Tresaulti, da Darkside. Como você, tinha receio de não gostar muito do livro por causa dos elementos mecânicos, mas sua ótima resenha tirou essa preocupação da minha cabeça. Depois te conto o que achei.
    Beijos,
    André, do Garotos Perdidos
    http://www.garotosperdidos.com

  • Debyh

    Em 28.10.2016

    Olá,
    Eu li também. E assim como você eu achei o livro lindo, a capa e tal, assim como as ilustrações. Mas não gostei da história, achei tudo perdido, não gostei de nenhum personagem e acho que o final deixou a desejar, mas que bom que você gostou.

    http://euinsisto.com.br

  • BELO, Amanda!

    Em 28.10.2016

    Nããããao!!! Ahahahah eu adorei o livro, e é uma pena que cê não tenha gostado ): É uma narração bem doida, realmente. Bem 8 ou 80, né: ou é pra amar, ou não gostar de vez.

    Obrigada por compartilhar sua opinião! <3

  • Clayci

    Em 28.10.2016

    Essa edição está maravilhosa.
    Quando comprei também fiz isso pela capa, mas me surpreendi com a história..

  • BELO, Amanda!

    Em 28.10.2016

    Mesmo que eu não tivesse gostado do livro, certamente teria ficado com ele nem que fosse como item de decoração 😛 É difícil dizer “não” pra essa capa, viu. hehe

  • camila

    Em 28.10.2016

    Nossa que livro mais interessante! Me prendeu bastante sua resenha 🙂
    Não conheci e é algo que leria com certeza pois adoro livros mais trabalhados assim com uma história diferente..

    http://www.chaeamor.com

  • Francine

    Em 28.10.2016

    Também comprei esse livro pela capa, mas ainda não li, estou bem curiosa agora que li sua resenha!

    bjus