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Um papo sobre dublagem com a dubladora de Phoebe Buffay

Em 04.10.2016   Arquivado em Jornalistando

Letícia Quinto tem 42 anos e entrou no mundo da dublagem quando tinha apenas 8. Ao longo de todo esse tempo, deu voz a mais de 120 personagens nas telas brasileiras e eu tenho certeza de que você conhece muitas delas. No mundo dos animes Letícia ficou conhecida por dublar Saori Kido (a Athena, d’Os Cavaleiros do Zodíaco), e a dupla Kagome e Kikyou, personagens de InuYasha. No cinema e na televisão, a voz da dubladora apareceu na pele de Mia Thermópolis (O Diário da Princesa), Andy Sachs (O Diabo Veste Prada), Nina Sayers (Cisne Negro), Phoebe Buffay (F.R.I.E.N.D.S) e outras tantas que se eu for parar pra citar aqui, não vou parar nunca mais — como disse agora há pouco, são mais de 120 trabalhos!

Letícia, um exemplo de simpatia e gentileza, conversou com o PD,N! em sua última visita a Campo Grande (MS). A dubladora falou a respeito do mundo da dublagem, contou como são os testes para dubladores e falou sobre como foi o processo para conseguir dublar a voz da personagem Phoebe, de F.R.I.E.N.D.S. A entrevista na íntegra você confere aqui embaixo!

Letícia, a sua trajetória na dublagem começou por acaso, com apenas 8 anos. Mas quando você percebeu que realmente queria seguir como dubladora?

Quando realmente a gente começa e percebe o que é a dublagem, eu digo que é como um bichinho que pica a gente e fica aquela coisinha gostosa, e a gente não quer parar nunca mais. Então, lá pros meus 14 anos, mais ou menos, eu vi o quanto era bacana e o quanto era gratificante isso. Cheguei a fazer outras coisas, tive contato com outras profissões, mas dublar, atuar, interpretar foi a minha melhor opção de vida. É o que me faz feliz. Eu sou muito feliz com o que eu faço.

Além da sua voz estar presente em vários animes, ela também aparece mais de uma vez em um único trabalho, como no caso da Agome e da Kikyou. Como você se prepara pra adequar a sua voz pra personalidades tão distintas e fazendo jus à essência das personagens?

O InuYasha foi um presente pra mim. Quando comecei a gravar, eu comecei fazendo uma só, porque a gente não tinha realmente um feedback do que era o anime. Depois, quando veio o briefing, a gente percebeu que a Kikyou e a Agome eram o mesmo personagem. Uma é a reencarnação da outra. Aí houve até uma dúvida: mas você que vai fazer? Vamos por outra pessoa? Falei: não, gente, é o mesmo personagem em épocas diferentes. Uma personalidade realmente é diferente da outra. (…) Depois de um tempo na dublagem, quando você olha pro personagem, a voz dele já vem em você. É uma transmissão. Parece que eu viro aquele personagem. Então quando eu falo como a Agome eu falo tudo assim, é a Agome mesmo. Então vamos lá, InuYasha: SENTA! E quando vem a Kikyou já vem ‘ah, cachorro louco, eu vou roubar as- as jóias- né, não lembro mais o texto, mas enfim- eu vou roubar as jóias de quatro almas. E eu vou acabar com você, seu cachorro louco!’ Não, não vai não, eu que vou acabar com você! Então assim, é uma coisa rápida. Quando permitia, em termos de gravação, fazer ao mesmo tempo, eu fazia. Era tão natural que ficava legal, e era fácil. Quando não, porque uma falava em cima da outra, a gente fazia primeiro uma e depois gravava a outra. Mas é como se eu dissesse que incorporava as duas ao mesmo tempo (risadas)

As vezes o cliente pede pra vocês, dubladores, se assemelharem o máximo possível à dublagem original. Isso deixa a dublagem mais confortável?

Acaba ficando mais fácil, sim. Como a gente sempre tem um guia, um original — no inglês ou no italiano, no japonês ou qualquer língua –, a gente vai em cima daquilo que foi proposto. Nós fazemos uma versão brasileira. Por ser uma versão, a gente vai de acordo com o que está sendo mostrado. Um bom exemplo pra citar sobre isso é o Bob Esponja. Quando fui fazer o teste pra fazer a Sandy, aquela castorzinha, uma das recomendações na hora do teste era exatamente essa: vai o mais próximo do original possível, porque é um desenho mundial e a gente tem que chegar o mais próximo. Ele vai ser lançado em vários países. E realmente, se você colocar na tecla sap, você vai ver que a minha voz se assemelha muito com a voz da Sandy no original e se você colocar no espanhol, vai ver que também chega perto. Todos chegam. Lógico, cada pessoa tem um tom, uma característica, mas é muito próximo. Isso ajuda sim na interpretação. A gente faz uma versão; não podemos criar um personagem novo. Se a gente fosse criar um personagem seria a voz original. Aí já é outro estilo de dublagem.

Você já dublou atrizes como Anne Hathaway, Natalie Portman e Kirsten Dunst em vários filmes. Isso acaba deixando a marca de ‘voz oficial’. Mesmo assim você precisa passar por testes antes de dublá-las?

As vezes sim. Não é uma regra, ‘porque dublei Anne Hathaway, todos os filmes da Anne Hathaway eu vou dublar’. Não. De repente o filme vai pra São Paulo, mas ela tá com uma cara mais diferente ou tá mais nova, aí falam assim ‘ah, mas a Letícia não consegue mais dublar ela’ (…) Vão chamar outra atriz. Não é uma regra, mas felizmente eu posso dizer que tenho a sorte de sempre acabar dublando os filmes de algumas atrizes. Então vira mesmo uma marca registrada, vai, e isso é tão gostoso! É tão gratificante saber que eu acompanho também o trabalho de determinadas atrizes!

E falando em testes, como são as provas pelas quais os dubladores passam pra pegar determinado trabalho?

O dublador é escalado. Ligam pra mim e falam ‘olha, você pode estar aqui amanhã das 9 às 10? Tem um teste pra uma novela’. Ok, a gente agenda essa hora e eu chego lá. É como uma dublagem normal, só que um trecho menor. Aí o diretor já separou uma cena, duas, três e vai falar pra mim ‘olha, você vai fazer a mocinha da novela’, ‘olha, aqui ela chora, ela tá desesperada’. Ele me passa o que ele quer, a gente ensaia e grava. É uma pequena dublagem pro dono do produto ter várias vozes e falar ‘ah, gostei mais dessa aqui nesse personagem’, e escolher. É dessa forma.

Você já sentiu vontade de participar da dublagem de um determinado filme e isso aconteceu? Caso tenha, qual filme foi?

Eu tenho o privilégio de dizer que já dublei de tudo um pouco. Então já aconteceu assim, por exemplo, saiu o filme O Diabo Veste Prada. Puxa, Anne Hathaway que tá no filme! Queria tanto dublar (…)! E aí calha do filme vir pra São Paulo! Porque se vai pro Rio de Janeiro eles não vão me chamar, vão dar pra outra pessoa — às vezes chamam, mas é difícil. Mas aí veio pra São Paulo, aí eu acabo dublando. Isso é gratificante. Porque a gente não sabe pra onde o filme tá indo. (…) De repente ele aparece, muitas vezes tendo que ter sigilo e a gente é chamado pra fazer o teste, e não sabe nem que tá fazendo teste pr’aquilo. Por exemplo! Ó, essa é boa. Eu fui chamada pra fazer teste de F.R.I.E.N.D.S. (…) Quando fui chamada pra fazer, só me falaram assim ‘Quer fazer um teste?’ Falei ‘Quero’, ‘Então tá, vem fazer’. ‘É pra quê?’, ‘Ah, é uma série’. ‘Que série?’, ‘Ah, eu não posso falar’, ‘Mas como eu vou fazer um teste pra uma série que você não pode falar?’, ‘Ah, o cliente não quer que fale, é sigiloso, não pode vazar que vai ter teste’. Aí a pessoa falou que a única coisa que podia me dizer era que é uma série muito famosa, de cinco amigos (risadas) Aí eu matei na hora, né?! Mas não me falaram, entendeu? Então as vezes rola dessa maneira! Essa foi uma das coisas que eu queria muito fazer e acabei fazendo, e no teste — eu fiz teste pra Rachel e pra Phoebe — eu falei na hora ‘ai, eu quero tanto gravar a Phoebe! Porque a Phoebe é divertida, a Phoebe é uma palhaça, ela só fala besteira. Eu quero ganhar o teste da Phoebe!’. Ganhei!

Por fim, quais as dicas você dá pra quem quer seguir na carreira de dublagem?

Primeira coisa: vá atrás dos seus sonhos. Não é impossível pra ninguém. Tem espaço, tem mercado pra todo mundo. Mas você tem que ser profissional e pra você ser profissional, você tem que fazer um curso de teatro, tirar o seu DRT (registro que o profissional recebe quando é considerado apto para exercer a profissão). Esse é o primeiro passo. Tirou o DRT? Faça um bom curso de dublagem. Cuidado: tem muito curso ruim. Tem muito curso que é pra tirar dinheiro do povo, como existem em várias profissões. Pesquise. Analise. Vá atrás do que é legal. Achou um curso bom? Faça, tenha humildade e vá atrás do seu objetivo. Você vai conseguir. Amor ao trabalho, amor a aquilo que a gente faz, é a certeza garantida de que você vai chegar no seu objetivo.

Quero muito agradecer a Letícia por ter dedicado seu tempo para responder as minhas perguntas. Foi uma emoção enorme ter escutado as vozes de Agome e Kikyou bem na minha frente, sendo elas personagens que foram tão presentes na minha infância e que continuam sendo muito especiais pra mim. Espero que sua estadia em Campo Grande tenha sido boa e que volte para nos visitar! Parabéns pelo trabalho incrível ❤

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Uma tarde na sala verde

Em 14.05.2015   Arquivado em Jornalistando, Lembranças

Eu não sabia o que esperar das aulas de tele quando iniciamos o quinto semestre. Tinha comigo que não ia gostar muito de me ver na televisão – mesmo que fosse apenas no estúdio da faculdade – e estava insegura quanto a minha habilidade em decorar textos para anunciá-los diante de uma câmera, mas não queria que esses pensamentos atrapalhassem o meu rendimento no laboratório.

A primeira aula que tivemos na sala de paredes verdes foi na quarta-feira passada e quando vi a empolgação do professor por finalmente chegarmos naquele estágio do curso, percebi que aquela seria uma ótima aula. Apesar das mãos geladas por conta do nervosismo em começar a fazer os exercícios, senti a descontração tomar conta do laboratório. As risadas tomaram conta em determinados momentos e isso trouxe uma energia tão boa ao estúdio que, sério, passei a considerar aquele dia 6 de maio como a melhor aula que tive naquela universidade desde o início do semestre.

Ontem retornamos ao estúdio para mais uma etapa de exercícios e dessa vez o que eu senti foi a cumplicidade que está tomando conta da turma 1. Quando alguém demonstrava alguma dificuldade ou mesmo mostrava sinais de que pensava que não conseguiria, os colegas apoiavam, incentivavam a continuar, diziam que a pessoa conseguiria sim. E eles estavam certos, é claro.

As aulas de tele estão proporcionando dias bons na faculdade. Dias que eu dificilmente vou esquecer. Mas mesmo com essa certeza, quis tornar essas lembranças ainda mais vivas com a fotografia.



Começamos com textos prontos. Líamos, memorizávamos e depois gravávamos. O segundo passo foi escrever e memorizar nossos próprios textos.



Aaaaah, as câmeras! Segura o microfone abaixo do queixo e cuida pra esse braço não subir enquanto você fala, hein. Olha pra câmera sem desviar o olhar. Não decore o texto, memorize-o. Saiba do que ele tá falando, assim você não vai se perder enquanto tá anunciando a notícia caso esqueça alguma palavra.

E além de termos a oportunidade de sermos filmados, também nos foi permitido filmar.


Agradeço à turma 1 que não reclamou em momento nenhum dessa moça aqui tirando foto de tudo e todos e, claro, agradeço também àqueles que estão nos ensinando tudo o que podem!